Enquanto os bancos centrais do mundo preparam o lançamento das moedas soberanas digitais de seus respectivos países, a China saiu na frente e lançou, em fevereiro, o yuan digital – moeda virtual lastreada pelo banco central chinês. Esse desenvolvimento acelerado faz parte de uma “guerra fria” que a China trava com os Estados Unidos para aumentar a influência do yuan no comércio internacional, opina o investidor e conselheiro Guga Stocco, co-fundador da Futurum Capital.
“O ponto principal é que, pela primeira vez na humanidade, o país que lidera o comércio mundial, que é a China, não lidera a moeda de referência internacional [ainda é o dólar norte-americano]. Não aconteceu ainda porque você não confia na moeda chinesa, as pessoas só aceitam o dólar”, explica Stocco, no 9º Gescon-SP que aconteceu no final de novembro.
A estratégia chinesa, de acordo com Stocco, é ganhar influência via e-commerce. É na China que está sediada a maior plataforma de compra online do mundo, o Alibaba, que vende para todos os países. Grandes players internacionais de e-commerce, como Shein e Shopee, são de Cingapura, cidade-estado asiática com fortes laços culturais e econômicos com a China.
Esses grandes e-commerces asiáticos já oferecem descontos para quem comprar em yuan, explica Stocco. “Se você comprar mercadorias em yuan digital, tem desconto de 10%. Assim, o mundo inteiro vai ter a moeda digital chinesa, que vai entrar pelo B2C (venda direta ao consumidor) na mão de todo mundo”, avalia o especialista.
O yuan digital
Também chamado de e-CNY, a moeda soberana chinesa é aceita em quase 6 milhões de estabelecimentos comerciais chineses, de acordo com o Banco Popular da China (o banco central chinês). A moeda vem sendo testada desde 2019 e movimentou 14 bilhões de dólares em operações comerciais.
Na atual fase de desenvolvimento, o e-CNY é adotado por sete bancos comerciais chineses em 20 cidades e acessado por 200 milhões de chineses, que já baixaram o aplicativo do governo necessário para realizar operações com o e-CNY.
Para especialistas de mercado, a influência do yuan no mercado mundial ainda é pequena e vai levar alguns anos até que ela tenha uma participação maior, mesmo que a China siga liderando o comércio mundial.
EUA acelera sua moeda digital soberana
O crescimento da moeda digital chinesa está sendo acompanhado de perto pelo Federal Reserve (Fed), o banco central dos EUA. Em novembro, a filial do Fed (banco central dos EUA) de Nova York começou a estudar a viabilidade do dólar digital por meio de testes com 9 bancos e instituições financeiras. Entre as simulações, estão operações de transferência e pagamentos interbancários por meio de tokens digitais.
De acordo com Stocco, o governo americano analisa com cuidado a criação do dólar digital, por não conhecer o impacto e os problemas de um dólar digital. “O que os EUA estão fazendo é incentivar a criação de moedas lastreadas em dólar (as stablecoins). Aí, quem vai competir é o Facebook, o Google e os bancos. Eles querem esse modelo de competição nessa ‘guerra fria’”, detalha Stocco.



























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