“Novo parecer de auditoria será um divisor de águas”

03/06 – O novo parecer de auditoria, que está em gestação, deve ser um divisor de águas não apenas para os profissionais de contabilidade mas também para o mercado de capitais como um todo, na visão de Warren Allen, presidente da Federação Internacional de Contadores (Ifac, na sigla em inglês).

Além da já tradicional opinião sobre a posição financeira refletida no balanço, que pode ser emitida com ou sem ressalva, no novo relatório o auditor provavelmente deverá externar sua avaliação sobre ao menos mais três pontos: os controles internos da entidade, a manutenção da empresa em continuidade e os julgamentos contábeis com impacto relevante no balanço e como eles foram discutidos com a administração.
As informações foram reveladas por Allen, em entrevista exclusiva ao Valor. Embora não dê uma data específica para aplicação do novo modelo, o executivo garante que as mudanças devem ocorrer “no curto prazo”.
O trabalho de revisão do parecer está sendo conduzido pelo Comitê Internacional de Normas de Auditoria e Asseguração (Iaasb, na sigla em inglês), um dos órgãos de autorregulação criados pela Ifac.
Segundo Allen, ele é uma resposta da profissão a uma demanda que surgiu com a crise financeira. “Já foi feita a audiência pública, que recebeu número recorde de manifestações, e agora esses comentários estão sendo processados”, afirmou ele, que veio ao Brasil manter contato com entidades locais como o Conselho Federal de Contabilidade (CFC), conselhos regionais e o Instituto Brasileiro de Auditores Independentes (Ibracon).
Tendo em conta os pontos em discussão sobre o novo parecer, Allen diz que é possível adiantar que o relatório será mais longo que o atual, normalmente de um página. “Dependendo com quem você fala, se diz que ele vai ficar com duas ou três páginas”, afirmou, lembrando que também se pretende reduzir parágrafos-padrão que aparecem “copiados e colados” atualmente.
Um dos pontos de atenção nesse processo de revisão do parecer, destaca o presidente da Ifac, tem a ver com o dever de sigilo. “O auditor não pode comentar uma informação que não tenha sido divulgada anteriormente pela empresa”, afirma.
Entre os pontos de destaque, especialmente em um ambiente de normas contábeis baseadas em princípios, como o IFRS, o presidente da Ifac entende que está o relato do auditor sobre como chegou a uma opinião sobre julgamentos feitos pela administração da empresa no processo de elaboração do balanço, como ocorre com o uso de valor justo para avaliação de instrumentos financeiros, com avaliação de ativos biológicos e também em testes de perda do valor recuperável.
“Seria útil o auditor explicar como ele chegou a uma opinião sobre esses casos, saber que áreas consultou. E até mesmo que ele dê uma ideia de relevância. De como seria a mensuração se a administração tivesse usado outra abordagem”, afirmou.
Allen admite que algumas empresas podem não gostar de ver expostas algumas informações sobre os julgamentos contábeis realizados por elas, mas argumenta que os comentários que o auditor vier a fazer estarão ligados a seu próprio trabalho.
Na visão do presidente da Ifac, o novo parecer deve ajudar a reduzir um antigo problema ligado à profissão de auditoria, que é o descasamento de expectativas entre o que o profissional do setor entende que assegura ao fazer seu trabalho e o que o público espera desse serviço. “Vai diminuir um pouco esse vão”, diz.
O tema foi novamente levantado em recente entrevista do presidente global da PwC, Dennis Nally, que disse ao Valor que gostaria de ver uma resposta definitiva aos questionamentos sobre a função da auditoria a cada vez que existe uma quebra de empresa ou a descoberta de uma fraude.
Allen, que nasceu na Nova Zelândia e fez carreira na Ernst & Young, diz que concorda com Nally a respeito da necessidade de os auditores se comunicarem melhor sobre o seu trabalho, mas lembra que o tema de descasamento de expectativas não é novo. “Essa discussão existe desde que eu entrei na profissão, e acabo de completar 40 anos no ramo.”
Na visão dele, um motivo para esse descasamento persistir por tanto tempo tem a ver com a mudança da expectativa do público ao longo dos anos. “A cada vez que há um problema as pessoas se perguntam: será que o auditor não deveria ter cuidado daquilo também? Ou olhado para esse ponto em particular? E isso passa a ser incorporado à expectativa, ampliando o vão.”
Embora o novo parecer de auditoria possa ajudar a reduzir o descasamento no curto prazo, diz Allen, bastará haver uma nova crise para ele se expandir novamente.
Enquanto isso, o presidente da Ifac se mostra menos confiante que seus pares sobre a possibilidade de reguladores da União Europeia e Estados Unidos voltarem atrás completamente em relação às propostas que aumentam a regulação sobre a profissão de auditoria. “Uma coisa que está clara é que haverá mudança. E a maior delas deve ter a ver com rodízio de firmas”, disse.
Outra mudança prevista, esta com apoio da Ifac, será a proibição de que contratos de empréstimos ou emissões tenham cláusulas exigindo que a empresa seja auditada por uma das quatro grandes mercado – PwC, Deloitte, Ernst & Young e KPMG.
Bancos vão exigir contas públicas mais claras
Grandes bancos internacionais serão atores relevantes no processo de sofisticação das práticas contábeis usadas no setor público, diz Warren Allen, presidente da Federação Internacional de Contadores (Ifac, na sigla em inglês).
Segundo ele, isso vai ocorrer porque a crise da dívida soberana europeia acabou com o conceito de aplicação de livre de risco. “Não há mais diferença entre emprestar para um governo ou para uma Coca-Cola ou Caterpillar. E os credores querem informação regular sobre a performance dos tomadores de recursos”, afirmou Allen.
Ou seja, assim como a contabilidade empresarial se desenvolveu ao longo de séculos em parte pela exigência de credores e investidores (de fora da empresa) por informações adequadas sobre a situação econômico-financeira das companhias, o mesmo tenderia a ocorrer agora com os governos.
Para ele, a crise da dívida soberana mostrou o “estado horroroso” da gestão financeira de algumas entidades do setor público. “Países importantes não registravam nem mensuravam seus ativos, passivos e contingências corretamente. Como contador, não me surpreende que eles tenham tido problemas financeiros”, disse Allen.
Num exemplo elementar, o executivo lembra que ainda poucos países adotam o regime de competência para fazer seus lançamentos contábeis de receita e despesa, enquanto todas as grandes companhias do mundo usam esse sistema – em vez do regime de caixa.
Fonte: Valor Econômico / por Fenacon
Escrito por: Fernando Torres
- 3 de junho de 2013

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