Confuso, complexo e caro demais

O sistema de cobrança de impostos perdeu, há muito tempo, a racionalidade e precisa ser reordenado para evitar, por exemplo, a tributação de bens de capital e investimentos

A simplificação das regras para pagamento de impostos prevista na reforma tributária em discussão no Congresso Nacional é uma oportunidade para estimular a recuperação da economia brasileira nos próximos anos. Especialista na área, o professor Isaias Coelho, da Fundação Getúlio Vargas, afirma que as mudanças podem ajudar muito o setor industrial. Mais especificamente, a reforma pode tornar o produto industrial brasileiro mais competitivo no mercado doméstico e internacional e o processo produtivo pode ser mais barato com a isenção tributária em bens de capital e investimentos.

“Quando se elimina a cumulatividade e a cobrança de impostos em todos os estágios de produção, o custo dos tributos fica menor na ponta e, portanto, o preço da produção brasileira fica mais baixo”, explica Coelho.

Segundo ele, esse tipo de mudança acaba com uma distorção porque a cadeia produtiva da indústria é mais longa. “Como está colocado no projeto do governo e no projeto do Congresso, essa cumulatividade acaba”, explica o professor da FGV.

Em relação à não tributação dos bens de capital e investimentos em geral, ele afirma que a indústria tem um processo de maturação mais longo. “Desde que há a decisão de produzir alguma coisa até o momento em que a mercadoria começa a ser entregue, leva um bom tempo em que há apenas gastos com máquinas, equipamentos e  treinamento. É um recurso que só será recuperado depois, ao longo da vida útil do projeto”. Segundo ele, “infelizmente o Brasil hoje tributa a compra de máquinas e equipamentos”, o que encarece o processo produtivo e atrasa a adesão a inovações.

Isaias Coelho argumenta que a reforma tributária não cria nenhum privilégio para a indústria, mas elimina a tributação punitiva contra o setor porque o mais adequado é que a tributação seja mais igualitária em todos os setores. “As propostas em discussão no Congresso são bastante positivas, mas não suficientes para fazer uma desoneração mais ampla para a indústria. É preciso que diminuam, também, os impostos pesados que oneram a contratação de empregados, o que tem um peso muito elevado no setor”, defende o pesquisador, que integra o Núcleo de Estudos Fiscais (NEF) da FGV.

Freio na desindustrialização
Na  avaliação do economista Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central, a reforma tributária é fundamental para frear o processo de desindustrialização pelo qual passa o Brasil. “A indústria brasileira, que até 2006 vinha acompanhando o mesmo ritmo de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), está perdendo importância na economia do país. Enquanto isso, no mundo inteiro, a produção industrial não parou de subir. Ela estagnou no Brasil e na América Latina, pois o país tem um peso grande na economia latino-americana”, afirmou o economista, durante seminário promovido pelo jornal Folha de. S.Paulo e pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), em agosto.

A reforma tributária, argumenta Pastore, deverá corrigir as distorções que foram acumuladas ao longo de décadas. “Unir tributos como IPI, ICMS, PIS, Cofins e ISS em uma única alíquota federal por meio de um Imposto sobre Valor Agregado (IVA), cobrado no ponto de destino do produto, é uma boa solução. Temos a oportunidade de fazer uma reforma tributária revolucionária para a indústria e para o crescimento econômico”, disse.

Relator da Comissão Especial da Reforma Tributária na Câmara, o deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB) defendeu, no mesmo seminário, a criação de um IVA que incida de forma transparente sobre bens e serviços, com tributação no local em que o produto é consumido ou o serviço usado.

“Hoje, o imposto é cobrado por dentro, portanto é cumulativo e obscuro. Você não sabe quanto está pagando. Nessa reforma tributária, nós vamos trazer o que é oculto para a forma aparente, para que as pessoas, de modo transparente, possam saber de fato o quanto pagam”, afirmou o parlamentar da Paraíba.

Fonte: CNI

Além da criação de um IVA nacional, gerado a partir da unificação de seis tributos (ICMS, PIS/Pasep, Cofins, IPI, ISS e IOF), a reforma tributária não pode resultar em aumento de carga tributária e deve incluir um imposto seletivo sobre bens de consumo com externalidades negativas, afirma Mário Sérgio Carraro Telles, gerente de Políticas Fiscal e Tributária da CNI. Segundo ele, é preciso, ainda, um período de transição, manutenção temporária dos atuais incentivos fiscais, adequação relativa dos preços na economia e criação de um Fundo de Desenvolvimento Regional.

As receitas para esse fundo, segundo ele, sairiam de uma parcela da arrecadação do IVA, com os recursos integralmente destinados a atividades produtivas e investimentos em infraestrutura.

Entre os princípios fundamentais da reforma tributária, diz Telles, devem estar:

a adoção do crédito financeiro no IVA, em substituição ao físico, com direito a crédito do imposto incidente em todas as aquisições necessárias à atividade da empresa;
a desoneração das exportações;
e a restituição ágil dos saldos credores do IVA, com determinação de prazo máximo.
“Se a gente tiver um modelo tributário bom, haverá um ganho de competitividade significativo para a indústria e isso permitirá que nossa indústria possa exportar mais e ter condições de concorrência com o produto importado aqui no nosso mercado”, avalia o gerente da CNI.

“A indústria vai ganhar mercado aqui dentro e lá fora, e isso estimula toda a economia, porque cada R$ 1 milhão que é produzido na indústria de transformação gera uma demanda de R$ 540 milhões de reais em outros setores”, explica Telles.

Problemas do sistema atual
Segundo Affonso Celso Pastore, o sistema atual tem distorções grandes, como a decorrente da descaracterização do ICMS, criado originalmente como um imposto sobre valor adicionado. Segundo ele, o ICMS induz a vários erros, sendo o principal o fato de ser coletado na origem, onde o bem é produzido. Isso gera cobrança em cascata e guerra fiscal entre estados e inviabiliza a recuperação de créditos. Além disso, muitas dessas empresas passam a produzir distante de portos e dos centros consumidores, aumentando custos como o de logística, prejudicando ainda mais a competitividade.

A economista Alessandra Ribeiro, sócia da consultoria Tendências, também chama atenção para o fato de a indústria ser um setor mais tributado que outro segmentos, como serviços, por exemplo.

“Para termos um quadro mais equilibrado, é preciso que a reforma tributária equalize isso um pouco mais, o que permitirá que a indústria seja mais competitiva e, consequentemente, cresça mais”, afirma. Como parte importante da arrecadação de tributos vem da indústria, esse maior crescimento contribui, também, para o ajuste das contas públicas, além de gerar empregos de maior qualidade.

Texto: Revista Indústria Brasileira
Para a Agência CNI de Notícias

- 7 de outubro de 2020

🤩 SIGA A GENTE NAS REDES
👉 Instagram: https://www.instagram.com/portalcontnews
👉 Notícias via Whatsapp_Folha: https://www.subscribepage.com/whatsfolha
👉 Notícias via Whatsapp_Fiscal: https://www.subscribepage.com/whatsfiscal
👉 Notícias via Whatsapp_Contábil: https://www.subscribepage.com/whatscontabil

Avaliem o Portal ContNews no Google!
Clique Aqui!

#ContNews #Contábil #Folha #Gestão #Fiscal #Inovação #Eventos

Portal ContNews

Portal ContNews

Informações pertinentes ao dia-a-dia dos profissionais contábeis. Notícias contábeis diárias, vídeos de eventos contábeis e conteúdos específicos para o contador!

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posts relacionados
Siga-nos no Instagram
Siga-nos
Café com IR: 27/05 |Últimos dias

Café com IR: 27/05 |Últimos dias

📣 Entramos na reta final do IRPF 2025! Amanhã, terça-feira (27/05), às 8h30, vamos AO VIVO com uma edição especial do Café com IR pra te ajudar a resolver as últimas dúvidas antes do prazo final! 🎯 Não deixe para a última hora! 🎙 Com:Valter Koppe – ex-supervisor do...

Café com IR: 20/05 | Saiba tudo sobre a Lei 14.754!

Café com IR: 20/05 | Saiba tudo sobre a Lei 14.754!

Nesta terça-feira, 20 de maio, às 8h30, vamos falar AO VIVO sobre um tema que está movimentando o universo tributário:🔎 Saiba tudo sobre a Lei 14.754! Se você ainda tem dúvidas sobre a nova lei da tributação dos fundos exclusivos e offshores, essa live é pra você! 🎙️...

Café com IR: 13/05 | Tem dúvidas sobre o IRPF 2025?

Café com IR: 13/05 | Tem dúvidas sobre o IRPF 2025?

☕📊 Mais uma edição do Café com IR 2025 está chegando! Amanhã, 13 de maio, às 8h30, tem mais uma live especial com o professor Valter Koppe, ex-supervisor do IRPF no Estado de SP — que vem participando desde o início desta jornada ao lado de Mauricio De Luca, CEO da...

Café com IR: 06/05 | Tem dúvidas sobre o IRPF 2025?

Café com IR: 06/05 | Tem dúvidas sobre o IRPF 2025?

📣 Amanhã tem live sobre IRPF 2025! Ainda tem dúvidas sobre a sua declaração? Então se liga: nesta terça-feira, 06 de maio, às 8h30, estaremos AO VIVO no canal do ConntNews no YouTube respondendo as principais perguntas sobre o Imposto de Renda! 🧾💡 É a sua chance de...

Café com IR: 29/04 | Tem dúvidas sobre o IRPF 2025?

Café com IR: 29/04 | Tem dúvidas sobre o IRPF 2025?

📣 É amanhã! Tem dúvidas sobre o IRPF 2025? Então não perca: amanhã, 29 de abril às 8h30, estaremos ao vivo no Youtube do ContNews, respondendo todas as suas perguntas! Prepare suas dúvidas, participe com a gente e declare seu imposto de renda com mais segurança! 🗓 29...

MAPA.DP – Mentoria de Atualização Permanente do ATUA.DP

MAPA.DP – Mentoria de Atualização Permanente do ATUA.DP

▪️ 6 meses de atualização contínua ▪️ 6 encontros online e ao vivo de 3h cada (1 por mês) de atualização com Jení Carla Fritzke Schulter e professores convidados ▪️ Acesso ao portal do aluno com ferramentas exclusivas ▪️ Trilha de conhecimento - Aulas gravadas de...

Minicurso FGTS de Reclamatória Trabalhista – GRAVADO

Minicurso FGTS de Reclamatória Trabalhista – GRAVADO

A partir de 01/05/2026, o FGTS da Reclamatória Trabalhista passa a ser escriturado pelo eSocial no evento S-2500 e recolhido pelo FGTS Digital. Vários detalhes que podem passar despercebidos e gerar duplicidades ou débitos desnecessários: - preenchimento correto dos...

Reboot Contábil by RDD10+: 08 e 09/10 – Blumenau/SC

Reboot Contábil by RDD10+: 08 e 09/10 – Blumenau/SC

O que é? O REBOOT CONTÁBIL é o ponto de encontro daqueles que constroem o futuro e lideram a escalada. Nos dias 8 e 9 de outubro de 2026, no Centro Multieventos Rivage em Blumenau/SC, vamos reunir alunos RDD em um ambiente que combina conteúdo estratégico, conexões de...

📖 eBook Como evitar a Malha Fina

📖 eBook Como evitar a Malha Fina

? eBook Como evitar a Malha Fina Declarações de IRPF retidas em malha da Receita Federal do Brasil deixam seus contribuintes sujeitos a penalidades, como multas, CPF bloqueado, emissão de passaporte proibida, entre outros. Em 2022, foram mais de um milhão de...

📖 eBook Como declarar PGBL e VGBL no IRPF 2023?

📖 eBook Como declarar PGBL e VGBL no IRPF 2023?

📖 eBook Como declarar PGBL e VGBL no IRPF 2023? O número de brasileiros que aderem a algum tipo de plano de previdência privada vem aumentando. Confira o ebook que traz tudo o que você precisa saber sobre as modalidades oferecidas no país e como declarar cada uma no...

📖 eBook Rendimentos Recebidos Acumuladamente na DIRPF 2023

📖 eBook Rendimentos Recebidos Acumuladamente na DIRPF 2023

Há tratamento tributário específico para situações em que rendimentos relativos a anos-calendário anteriores ao do recebimento, que deveriam ter sido pagos periodicamente, foram recebidos de uma única vez. Confira o ebook sobre o assunto com as atualizações para 2023!...