A decisão da Intuit (gigante americana de softwares contábeis) de descontinuar a sua ferramenta de gestão QuickBooks no Brasil, anunciada em 27/9, não chega a surpreender os especialistas de mercado ouvidos pelo ContNews sobre o assunto. A forte concorrência no segmento de pequenas e médias empresas, onde o QuickBooks atua, e a necessidade constante de atualizações de software para o cumprimento de obrigações tributárias, foram os motivos apontados para o encerramento da ferramenta no Brasil, segundo eles.
Como empresário, Wilson Gimenez chegou a usar o QuickBooks em suas empresas e disse que ele funcionava em parâmetros estrangeiros. “Já usei o QuickBooks em meu escritório, é uma ferramenta antiga e bem ‘americanizada’. Dentro de um certo padrão americano, veio evoluindo para atender a legislação brasileira e se concentrou em microempresas”, comenta.
“Mas tem toda uma customização dentro do produto exigida pela lei brasileira que fica difícil para eles abrirem muito (o software). Talvez eles tenham concluído que, financeiramente, não valia a pena”, opina. Além de empresário contábil, Gimenez é diretor técnico da Fenacon (Federação Nacional das Empresas de Serviços Contábeis e das Empresas de Assessoramento, Perícias, Informações e Pesquisas).
Situação atípica
Apesar de o QuickBooks ter evoluído para atender a legislação brasileira, como aponta Gimenez, o nível de customização necessário para cumprir obrigações fiscais pode ter surpreendido a Intuit, segundo Queli Morais, sócia de Consultoria Tributária da BDO.
Observando as funcionalidades da ferramenta, Morais disse que o QuickBooks é um produto padrão para pequenas e médias empresas, especialmente em países nos quais a tributação segue o modelo de IVA (Imposto de Valor Agregado) – onde a apuração é mais simples e unificada do que no Brasil.
“Estamos falando de uma boa ferramenta que funciona no mundo inteiro, mas que, no Brasil, encontrou uma situação atípica (complexidade de regras tributárias)”, observa. “Não é surpresa a Intuit decidir se retirar, considerando que um investimento em customização não vale a pena, pelo resultado que obteve nesse momento”, acrescenta.
O Brasil não figura nem entre os 10 principais países clientes do QuickBooks, mas, nos Estados Unidos, a Intuit lidera o mercado de gestão contábil para pequenas e médias empresas com mais de 165 mil clientes. O Canadá é o segundo maior mercado, com 9 mil clientes, seguido pelo Reino Unido (6,5 mil usuários).
Tratamento diferente é a regra
As regras tributárias brasileiras mudam com frequência e há cálculos específicos para um mesmo produto, o que torna ainda mais desafiadora a atuação de empresas internacionais por aqui, assinala Diego Weis Jr., sócio do Moreira Garcia Weis Advogados Associados e fundador da consultoria Exen Growth Business.
Ele cita o PIS e a Cofins como exemplos, que têm dois regimes (cumulativo e o não cumulativo) e alíquotas diferenciadas, dependendo do produto.
Para calcular o PIS/Cofins de uma bebida como a cerveja, é preciso apurar a alíquota ‘ad valorem’ (percentual sobre uma base de cálculo de faturamento, como é feita na maioria dos casos) e a ‘ad rem’ (aplicada sobre uma unidade de medida, como a quantidade produzida), explica Weis. “Você tem que calcular as duas formas e pagar a que for maior. Então é preciso fazer muitas adequações para atender a uma infinidade de regras e, para alguém que vem de fora, pode não compensar do ponto de vista financeiro”, disse Weis.
Adaptação
O segmento de pequenas e médias empresas é altamente pulverizado e a capacidade de pagamento é geralmente menor que a de grandes empresas. A competição é maior, o que exige dos desenvolvedores de software conhecimento de mercado e planejamento maiores, de acordo com Elinton Marçal, diretor da SCI Sistemas Contábeis.
“Existe uma variação muito grande de regras tributárias entre estados e municípios, mas também de negócios. O sistema de gestão de uma padaria vai funcionar diferente de um sistema para hospital ou auto mecânica. Hoje vive-se muito o simplismo na tecnologia, como se o funcionamento de um sistema fosse fácil para todas as empresas”, explica.
Para ele, muitas empresas estrangeiras acabam se precipitando no mercado brasileiro por não entender bem a dinâmica de negócios local. “A Intuit quis trazer um produto de fora (QuickBooks) para o Brasil, mas sem estudar profundamente as diferenças tributárias da União, estados e municípios”, comenta.
Outras multis podem sair
É o caso de outras multinacionais que compraram sistemas antigos e, com isso, não estão conseguindo atuar no mercado. “Mais outros casos de descontinuidade vão acontecer no mercado. Empresas estrangeiras também erram na gestão, não é somente sair comprando empresas por aqui para atuar. É preciso estudar bem o mercado antes de entrar”, afirma Marçal.
Segundo o empresário, um sistema contábil desenvolvido por uma empresa nacional sai na frente na disputa pelo mercado, mas o mais importante é “que ele seja bom”. Levando em conta as particularidades do mercado brasileiro, um bom sistema contábil leva de 4 a 5 anos para ser desenvolvido e, mesmo depois do lançamento, leva tempo para se consolidar no mercado, de acordo com Marçal. “Quando desenvolvo um sistema, só coloco no mercado quando ele está pronto, com todos os testes. O Syndkos, por exemplo, foi lançado no ano passado e estará entre os 3 melhores nos próximos anos”, afirma.
Intuit segue no Brasil sem o QuickBooks
No Brasil, a Intuit opera com o QuickBooks e o MailChimp, principal software de CRM e e-mail marketing do mercado. Segundo a Intuit, o MailChip vai continuar funcionando normalmente por aqui, mas o QuickBooks encerrou a venda de licenças em outubro e estará disponível para uso dos assinantes até 30 de abril de 2023, data em que o software será descontinuado em solo nacional.
Em comunicado aos clientes, a Intuit apenas comentou que é uma empresa global que tem capacidade para atender às questões contábeis dos clientes “sem a necessidade de oferecer condições específicas a mercados fora dos EUA, Reino Unido e Canadá”.



























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